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Repensar a Filatelia Juvenil
A Filatelia Juvenil não está bem de saúde. Ao fim destes anos seria de esperar que novos praticantes tivessem surgido para aumentar o rol dos coleccionadores portugue-ses. Não é o que se verifica.
Talvez seja o momento de nos debruçarmos sobre o problema, equacionar as questões que com ele se prendem e encarar as políticas de acção que mais eficazmente produ-zam resultados.


Há entidades com as quais se poderia e deveria contar neste processo

Não tenho qualquer dúvida que é nas escolas que reside a resposta. Afigura-se por isso essencial que as enti-dades com mais responsabilidades no apoio às actividades juvenis, por um lado, e mais ligadas à Filatelia, por outro, o compreendam.
Os primeiros interesses nascem na escola que os alunos frequentam. É nela, portanto, que a acção se deve concentrar.
Indispensável seria, primeiro que tudo, que o Ministério da Educação Nacional reconhecesse o valor educativo da Filatelia. Depois que, trabalhando em conjunto com a Federação, proporcionasse a formação a professores que pudessem vir a ser potenciais organizadores de núcleos.
Da Federação Portuguesa de filatelia, como aconte-ceu há alguns anos, que facultasse a candidatos a monitores de Núcleos cursos de pequena duração em que se abordas-sem os fundamentos básicos da Filatelia e ideias práticas sobre a criação daqueles.
A motivação inicial é um factor decisivo para a captação do interesse e criar laços com esta disciplina não é de todo difícil, desde que haja professores que mostrem alguma disponibilidade e formação adequada. Contudo, é fundamental dar-lhes condições para que possam trabalhar com os alunos que livremente escolham esta área, levar a cabo as acções de sensibilização julgadas necessárias e con-cretizar os eventos calendarizados. Assim, das Escolas esperar-se--ia que considerassem as actividades desenvolvidas neste âmbito um elemento de avaliação para a Área Escola e que se "comprometessem" a manter em funcionamento o Núcleo criado, pelo menos, durante o número de anos que os jovens que tivessem começado ali permanecessem.

Temos contado não obstante com algumas ajudas inestimáveis A Federação Portuguesa de Filatelia apoia as iniciativas dos Núcleos que apresentam planos anuais de trabalho credíveis, mas estes lutam com sérias dificuldades para manter activos os jovens que vêm a interessar-se. Para dez ou doze praticantes, as disponibilidades passam pelo subsídio atribuído ao carimbo pelos CTT e a soma que a Federação consegue disponibilizar. No entanto, orçamento com que se conta é manifestamente insuficiente para custear os espécimes, as folhas de suporte, a fita "Hawid" e tudo o mais que implica a preparação de uma colecção.
As Autarquias também têm prestado um serviço relevante, uma vez que as mostras dependem dos seus serviços e apoios logísticos para se conseguirem realizar. São elas também que suportam os custos das medalhas e outros troféus com que os filatelistas são recompensados pelo seu trabalho, o qual culmina com a realização de uma exposição anual.
E não se podem deixar de referir ainda algumas ofertas que chegam de pessoas que, segundo as suas próprias palavras, reconhecem na Filatelia uma actividade a incentivar papel que pode desempenhar na formação dos jovens.


A participação activa dos CTT é uma condição indispensável

Os Correios através dos seus Serviços de Filatelia podem fazer mais. Investir na Filatelia Juvenil, à semelhança das suas congéneres estrangeiras, com a oferta de algum material a Núcleos que reunissem os requisitos a determinar e sob condições preestabelecidas poderia ajudar. Em trocas de impressões com o Sr. Eng.º Luís Andrade que, como se sabe, é o Director dos Serviços de Filatelia, ele tem-se mostrado receptivo a estudar esta proposta. Volto a deixar aqui a sugestão.
Neste momento a maioria dos FDCs e Postais Máximos que os CTT oferecem para divulgação não têm qualquer préstimo filatélico porque, ou sobre a própria obliteração ou em lugar de destaque, é aposto um outro carimbo de Oferta. Os filatelistas seniores não se servem deste material, mas aos juvenis, se o carimbo fosse colocado na retaguarda dos documentos daria uma ajuda preciosa. Blocos ou séries poderiam eventualmente ser cedidos aos Núcleos, obliterados com carimbos de primeiro dia, como já em tempos foi prática que lamentavelmente se perdeu.
A Espanha e a França editam inclusivamente selos especiais tendo em vista as Exposições Nacionais. A Alemanha, para um Encontro de Juvenis, neste caso internacional, realizado em Weimar, em Julho do ano passado, editou até um Inteiro Postal.
Lógico seria que os Correios fossem a alavanca de todo este processo e investissem, praticamente sem acréscimo de verbas, naqueles que certamente virão a ser os seus futuros consumidores.
O público alvo abrange um leque de idades que exigem uma consideração especial

Os jovens com quem se trabalha, na maioria dos casos, não ultrapassam os treze, catorze anos. A mais das vezes não possuem material e não se pode contar que os pais - para além de todas as despesas indispensáveis - se dispo-nham a investir naquilo que pode ser um capricho passagei-ro. Além de que não se apercebem da grande vertente edu-cativa da modalidade, nem estão sensibilizados para incenti-varem os filhos à sua prática.
Portanto, as participações das crianças em colec-ções, com o material de que podem dispor - provindo apenas de selos descolados, alguns de pacote, das ofertas que se conseguem dos Correios e outras entidades ou de pessoas de muito boa vontade - traduzem exclusivamente o seu pensa-mento, a maneira como vêem, sentem e interpretam as coi-sas, reflectindo, naturalmente, a ingenuidade própria da idade. As escolhas dos temas, as pesquisas sobre eles e os planos, são sempre da responsabilidade do Autor da colec-ção. Naturalmente que na fase da preparação e da escolha dos espécimes lhes é dado todo o apoio e aconselhamento, mas de forma a não desvirtuar a ideia que mostraram querer desenvolver. Constituem excepção os casos de alguém com-pletar um trabalho que revela maior reflexão.
Para a Filatelia Juvenil existe um protocolo com a França e Espanha no sentido serem convidados jovens co-leccionadores dos três países que reunam condições para concorrer em Exposições Nacionais. Da experiência vivida na participação em certames de carácter internacional, os nossos jovens filatelistas não têm qualquer possibilidade de competir com os seus parceiros de outros países. Quando as colecções se confrontam com as dos seus colegas não existe a mais remota possibilidade de se estabelecer comparação.
Aqueles têm fortes apoios das direcções postais dos seus países e das federações que dispõem de verbas signifi-cativas que sabem aproveitar.


Os regulamentos e os critérios de avaliação estão desfasados

E, levanta-se ainda outro problema no contexto da Filatelia Juvenil.
Os regulamentos e critérios de avaliação não estabelecem com absoluta clareza, dada a generalidade da sua redacção, a forma como devem ser aplicados e estão, a meu ver, elabo-rados numa perspectiva que pouco tem a ver com os vários níveis etários daqueles a quem se destina.
Assim, os critérios definidos para cada um deles diferem muito pouco. Uma criança tem uma ma-neira de ver e compreender as coisas que é, evidentemente, dife-rente da de um adolescente ou de um jovem adulto. Esta pode não ser relevante para os juizes, mas é a criança que, de acordo com regras bem espe-cificadas, tem de ser compreendida por quem classifica a sua colecção e não o inverso. Se assim não acon-tecer, estamos a subverter o proces-so e a excluí-la de uma ocupação em que apostou e de onde, afinal, sai in-justiçada.
Ambos, regulamentos e critérios, necessitam de uma redefi-nição urgente tendo em conta esta realidade. Não se podem avaliar pelos mesmos crianças e jovens entre os 10 e os 20 anos. Coleccionar é um processo educativo, é fundamental ter em consideração a justiça das classificações que mar-cam.
Já se viu que nos Núcleos Escolares as idades predominantes situam-se entre os 11 e os 14 anos, havendo em alguns, crianças do Nível Básico I com 9 e 10 anos. São crianças que se esforçam e contam unicamente com as suas possibilidades e com meios limitados para a realização das suas colecções. Não podem, pois, ser todos avaliados de acordo com os mesmos parâmetros.
É confrangedor constatar, repito, as diferenças entre as participações apresentadas pelos concorrentes espanhóis e franceses das mesmas idades e sentir a desilusão dos nossos pequenos coleccionadores por não conseguirem chegar ao mesmo nível.
Por que não criar nas Juvenis uma Classe para Iniciados?
A manter-se esta situação, estaremos a contribuir irremediavelmente para afastar da Filatelia os mais novos porque aquilo que são capazes de fazer não se aproxima de um ponto de vista " mais adulto" e não é, por consequência, reconhecido. A energia e o gosto postos numa actividade que lhes pareceu aliciante, transformar-se-ão num esforço sem sentido, uma vez que o trabalho resultante só será exposto em Mostras Locais, na melhor das hipóteses, em Inter-Regionais e com muita sorte numa Nacional.
Deixo à reflexão de quem de direito estes pontos, que são o resultado de dez anos de trabalho com os mais novos, entre muitos dos quais testemunhei o verdadeiro prazer de coleccionar selos, o esforço que despenderam em pesquisar, corrigir e apresentar e o tempo que investiram. Em muitos casos, mais de 100 horas anuais.
DE: Anónimo

 

 

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